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14 de janeiro de 2011

É fundamental que você escute todas as palavras, todas, e não fique tentando descobrir sentidos ocultos por trás do que estou dizendo, sim, eu reconheço que muitas vezes falei por metáforas, e que é chatíssimo falar por metáforas, pelo menos para quem ouve, e depois, você sabe, eu sempre tive essa preocupação idiota de dizer apenas coisas que não ferissem.

Caio Fernando Abreu

9 de novembro de 2010

Ser mais você.


São tão raras as pessoas especiais nesse mundo que fiquei a admirando e me esqueci, por um milésimo de segundo, naqueles cantos sujos daquela escola cheia de histórias e intenções mortas. Depois, sobrevoei Bárbara com asas falidas e entrei debaixo de sua proteção, lá me desnudei emocionalmente e pus para fora do meu peito todas as emoções pesadas que eu carregava em mim. Vomitei em seus pés pessoas e sentimentos.
Você é linda, você é forte, você tem um útero, você tem esses buracos onde eu posso esconder os meus exageros e não sentir vontade de me cortar em praça pública, de tanto que sobra. Não sei muito ao certo o que te dizer, mas sei que com os seus passos lunáticos e com a sua voz que emana muita paz, eu salvei segundos dos meus dias, salvei dias da minha existência, salvei as pulsações pesadas que eu ouço na hora de dormir, que me contam de segundo em segundo e confundem o vazio com resto de prazer.
Quero sentir aquilo de novo, meu amor, quero morrer de dor no peito e ter certeza que é mais ou menos amor mesmo. Qual é mesmo a analogia que fala de água, sal e boiar? E Bárbara corre até mim em passos leves que também são de borboleta - além de seus beijos - e diz, colada em mim: Mar morto. Essa é a analogia que a gente fez com o mar morto. Onde você boia sem fazer força e arde só para sentir qualquer coisa plausível.
Então não para, eu tenho um documento que estava em branco mas agora está cheio de você. Continue tentando disfarçar a dor nos pés, continue tentando controlar o desespero de perder o controle, vamos dar mais uma volta, me olha assim de novo com esses olhos grandes e profundos.
Continua fazendo sombra para mim em dias de sol, me enfiando nos cortes, polindo minhas armaduras, alivie minhas dores, meus tormentos, continue curando a falta do meu peito, a cegueira do meu olho. Me jogue realidade e ilusão e faça de mim o que você sempre fez: seu. Bárbara, eu não sei viver, eu não sei sentir, e sei muito menos não sentir, então me tranca em qualquer lugar perto das suas costelas que aí eu continuo me inebriando na sua vida.
Eu sei que se eu sentir qualquer coisa que não seja você, eu volto a expelir lixo e aí ninguém vai chegar perto de mim. Se eu absorver alguma coisa que não é você, eu crio casco e unhas gigantes que machucam as pessoas e procuram os pontos fracos dos outros para se sentir mais forte. Se eu não enxergar você eu me lembro daquelas cabeças que só querem querer, gozar e fugir.
Eu não quero lembrar de que não sobrou nada dos tijolos que eu pus meio sem jeito em cima do nada. Eu não quero lembrar que o vento passa pelas minhas janelas tão forte que quase arranca os pedaços que eu custei a colar. Eu não quero lembrar do mundo e do seu poder regenerativo enquanto eu a cada dia perco mais e mais e ainda assim não consigo levantar de manha de tanto que meu corpo pesa.
Bárbara vem, chama o guincho, vamos embora daqui por favor. Quero ver beleza, quero ver verdade, não aguento mais ter nojo de todo mundo, medo de todo mundo, descrença em todo mundo. Como é que você faz isso de modo tão extraordinário, de não sentir e ainda brilhar como se fosse sol? Então é isso, eu preciso que você seja tão grande e brilhante nos meus olhos que não deixe mais nenhuma alma suja aparecer. Eu quis amar alguém de verdade, e você com os cílios de verdade e as suas emoções de verdade é a única pessoa de verdade que eu conheço.
Eles não, eles são sujos, eles tem segundas, terceiras e quartas intenções, eles procuram qualquer pessoa para esfregar as suas periferias nojentas, eles machucam, eles se fantasiam de personagens de desenhos animados, eles esquecem tanto amor. Eles não sabem o que é sentir com a força de mil mundos e então parar, estacionar. Eu sei o que se passa dentro de você e então espero que seja digno de estar contigo.
Então continue com a sua dança, continue sendo metade borboleta, continue sendo inteira, porque enquanto você continuar sendo você, eu continuo sendo você também.

Matheus Oliveira, para Bárbara Bueno, pela vida.

25 de outubro de 2010

Tocar o chão


Quando a vi pela primeira vez. Há sempre esse espaço de tempo: quando a vi pela primeira vez e o depois. Quando a vi pela primeira vez, Bárbara era alta e forte, impenetravel, a esperada, o certo, a inquebrável. Ela tinha as unhas amarelas e chegou estufando o peito, como se fosse muito acima de qualquer coisa mas deixando transparecer uma leve insegurança num milésimo de segundo. Ao invés de eu perceber suas pernas, fiquei apenas me perguntando como é que uma garota igual a ela conseguia se sentir insegura. Nos segundos, dias e meses que se seguiram, toquei nela e senti no céu da boca um lugar com muita paz, coisa que só as pessoas muito boas conseguiam proporcionar. Senti do paraíso de poder deitar no chão com ela após uma das grandes quedas até poder carregar ela no espaço entre as minhas asas e a minha costela. Now my feet won't touch the ground now my head won't stop you wait a lifetime to be found. Camaleão, quimera, musa. Sua bondade a faz acreditar que o mundo é bom, e ao mesmo tempo blasfema toda a sujeira que a obrigam a ver. Pensou então, talvez, que não seria o bastante viver só com a risada. Provou do veneno que diminui os grandes e continuou em pé. Não arredou nem um milimetro de seu corpo em negação, não aceitou perder. Com essa falta de jeito para se entregar, com esse brilho no olhar que mistura medo e muito amor, com algumas marcas roxas no corpo e alguns machucados internos, Bárbara me protegeu de mim, me ajudou a dizer não aos meus medos e desejos nocivos, ambos tão intensos que não poderia ser outra pessoa, além dela, para se tornar, alem do meu amor, a minha cura.

Matheus Oliveira para Bárbara Bueno

7 de setembro de 2010

De dois, um


- É pura magia.
Foi o que um disse dentro dos extremos da sala. A sala continha duas cadeiras velhas, um e o outro, feixes de luz entrando pelas janelas entreabertas e músicas. Ferozes, calmas.
- Aquela garota é feita de pura magia. Porque ela tem olhos grandes e cílios-postiços-verdadeiros. Não é corrompida nem com a desgraça mundial nem com o lixo que a fazem guardar debaixo da cama. Tem dedos de pianista, ela disse. De artista. E instituída de uma calma e beleza natural, sabe absolutamente tudo sobre buracos negros e brancos, que sugam e expelem.
O outro fez um movimento, como que prestes a falar, mas o primeiro não permitiu.
- Você vai perguntar se estou apaixonado por ela, eu sei. Mas não se preocupe, se fosse paixão, eu sentiria vontade de usufruir do seu corpo e não de sua mente. É mais do que amor, porque se fosse amor, a minha vontade seria de morrer e não de viver por ela. É alguma coisa indecifrada entre amor fraterno, amor de amigo e amor de pai.
No segundo seguinte, o outro se levantou e pôs-se a pensar. Era de fato diferente, essa garota. Conseguia equilibrar nas costas - e sem reclamar - qualquer extremo que lhe fosse dado. Se era dia de guerra, enchia-se de armadura para guerrear pelos outros. Se era dia de paz, sentava no chão e fazia ventar. Era perfeita. E então era isso, perfeição? Meu Deus, era essa a palavra que a descrevia. Enquanto isso, o primeiro acendia um cigarro e se distraía com a fumaça, esperando ver se ela conseguia chegar até o teto. Estava quase parando de falar, então sorriu e recomeçou
- Quero que dure, sabe? Essa viagem. Não sei, alucinação, talvez, o que eles chamam de efeito-colateral-do-remedio, efeito do ópio ou todo esse sentimento que eu não sei descrever. Espero que dure, porque essa história acabou de começar e já foi suficiente para acabar com todos os traumas e quedas que eu tive pelo caminho.

Matheus Oliveira, para Bárbara Bueno, em reciprocidade.

2 de julho de 2010

Meu orgulho diário


Orgulho maior, coração batendo fora do peito, em descompasso. Apesar dos pesares, das neuras, dos degraus e das lacunas, estou aqui. Orgulho maior, motivo de alegrias, risadas. Os meus sentimentos mais ternos são todos seus, completamente seus, unica e exclusivamente seus. Depois de todas as idas e vindas, você ficará bem aqui dentro, entre a minha asa e o meu coração. Depois de todas as despedidas doidas, eu ficarei bem com você, debaixo dos cabelos mais lindos que alguém poderia ter. Orgulho maior, queria eu ter essa paz, essa leveza e esse olhar. Foram horas e horas de assuntos aleatórios jogados ao vento, horas e horas de filmes contados, planos feitos e ilusões desfeitas. Com você é mais fácil. Com você tudo flui. E nem poderia ser diferente, afinal, você é o meu orgulho maior.

Matheus Oliveira, para Bárbara Bueno, pelas risada, finais de filmes contados, verdades, ajudas, manhãs adocicadas, prazeres absolutos, horas de felicidades, dias de esperança, meses de conversas e todo o tempo gasto na gente, pela gente.

24 de maio de 2010

De fada, de bruxa


Tenho quase a certeza de que ela não é desse mundo. Porque ela toca e para. Porque ela olha e para. Porque ela beija e para. O mundo para, a dor e até as águas do rio mais violento. Ela faz parar a dor de corações partidos e peitos abertos. Por isso essa certeza. De que ela pertence a outros mundos, tem outras luas, conhece outros povos. Não sabe o que é traição e nem consegue ser violenta. Tem jeito de fada, de bruxa, de anjo, de espirito. E como se não bastasse, é dona do olhar mais lindo do mundo, do sorriso mais quente do mundo e das mãos mais frias do mundo. E ela desfila por aí, feliz em ser filha, mãe e escrava do meu amor, absurdamente feliz em ser dona da minha paz. E é absurda em todos os sentidos, não enfraquece nunca, nunca. Tenho é orgulho dessa tua força que passa das tuas afinidades com os meus exageros. É a caixinha delicada do coração mais pulsante e lindo desse e de todos os outros mundos, e é por isso que eu faço questão de guardá-la para sempre.
Não vai embora, meu coração, por favor.

Matheus Oliveira à Barbara Bueno, luz de todas as manhãs e eternos olhos de jabuticaba

10 de maio de 2010

São as tuas marcas no meu corpo


"Teus buracos encaixam nos meus exageros" é o tema de hoje. Entra, toma um chá, você faz totalmente parte da minha vida. Você é essa força da natureza que deu certo. Para de ser assim, por favor. Talvez você seja toda a minha vida. Eu mal consigo olhar você nos olhos, são grandes e parece que se você fixar muito o olhar, dá pra ver um mundo. E esse mundo que nunca foi tão mundo antes de você existir, é lindo, mas só enquanto você está lá. E Estará, por semanas, décadas e milênios. São tantas as marcas que já fazem parte da gente, tantas tatuagens e fissuras. Meus exageros são seus, querida. E você ainda é a mulher mais linda do mundo. Tua alma é minha, querida. Deixa eu te olhar contra a luz do sol, deixa? Somos isso: o plural de um, o foco de tudo o que há de melhor. A concentração, a força. A armadura e o soldado, o castelo e teu dragão. Vai dar tudo certo, eu prometo, mas cuida de mim? Eu prometo cuidar de você também. Você também pode e sabe que a casa já é tua, o espaço aberto é pequeno, pois minha alma transborda. Olha, você tá sentindo o frio? Ele vem de dentro, querida. Veste o casaco, vamos sair para tomar um café: você e eu e nossos vicios, nossos antídotos, nossa cabeça. E é bom injetar você, fumar você, ser completamente viciado. Olha, eu acredito em você, querida. Porque você é essa força absoluta que nunca precisará guerrear por si só ou abrir a boca para ter vitória. Você já é ganhadora do mundo. Vai, faz o seu olhar que faz a terra parar de girar. Me dá mais um beijo de borboleta que estanca feridas, fecha frestas abertas e canaliza a dor interior. Fica parada mais uma vez. E ainda assim você vai ganhar. Eu e o mundo. Chega mais perto, deixa eu deitar no teu ombro. Que Deus nos abençõe, querida, precisamos. E nos dê força. E paciência. E mais tempo para amar. Muito mais tempo.
Obrigado pela armadura desamassada e polida, eu sou mais forte com você.
Obrigado pelas mãos, pés e cordas que você foi me jogando pelo meio do caminho, eu cheguei até você.
Obrigado pela proteção, pela delicadeza e pela força constante de todos os dias, é mais facil com você lá.
E obrigado, por ser quem eu procurei em galáxias e mundos, mas só encontrei aqui, em você.


Matheus Oliveira dedicado à Bárbara Bueno

6 de maio de 2010

O beijo da borboleta


- Eu perdi essa guerra, Bárbara
- Então tira essa armadura e deixa eu cuidar de você. A grande guerra acabou.

Matheus Oliveira para Bárbara Bueno, sem acento

18 de abril de 2010

Mais um pouco


Ela ria, e ria, e ria e Barbara era a unica que podia consentir esse sentimento sem julgar que Carolina estava ficando louca ou pertubada. Agora Carolina estava feliz
- Isso é amor, Carol!
- Não é amor. E se é, é um amor impossivel, não é reciproco, é platonico. Ele está lá, se divertindo, só eu estou assim, boba por ele.
- Isso é amor, Carolina. E ele sente o mesmo - disse ela pela segunda vez. Era incrivel como Bárbara tinha essa sensitividade, essa inspiração para dizer o que sentia, para sentir o que dizia, essa calma no meio do caos.
- Não é amor, Barbara, para. De certa forma, eu só gostei de me ver como ele via, de achar que eu tenho o valor que ele me deu. Eu só me sinto muito bem ao lado dele, e confio nele, e quando estou perto dele, sinto que minha alma quer sair pelos poros. Mas não é amor, amor, é bobeira de pós-adolescente!
- Isso é amor, minha querida - Ela disse pela terceira vez

Matheus Oliveira

22 de março de 2010

O contraste da minha sujeira


O mundo inteiro estava chovendo lá fora, as pessoas mergulhando na propria consciência para não sentir nada, todos estavam caminhando para o inferno, e ainda assim eu só tinha olhos para os seus olhos. Enquando o mundo se sujava cada vez mais na sua lama, Bárbara estava pulando de precipicios, Bárbara estava tentando amar sem defender o coração. E eu queria dizer, eu só queria dizer que você não pode ter orgulho de mim, que tudo o que eu faço é sujo, e que, no fim das contas, eu vou sujar você também. Você é tão linda, você é tão pura, você é tão humilde, que eu preciso muito te sujar só para me sentir mais limpo.
Bárbara preencheu o vazio do meu estômago nas manhãs mais entediantes, Bárbara esteve lá para lamber todas as minhas feridas, por mais que as suas já tivessem o gosto suficientemente amargo da tragédia. São tão poucos os momentos lindos que nós vemos ao nosso redor que, depois de a conhecer, eu quis prestar uma homenagem diária a ela, eu quis que ela fosse um pouco igual a mim só para eu não me sentir fora desse mundo.
Ela quis ser minha amiga, e me perguntou aonde doía. Acontece que ela nunca chegou muito perto da sujeira, e para perguntar isso, ela ficou colada em mim. Queria te dizer, Bárbara, enquanto eu dou risada meio cinica e leio um livro shakesperiano todos os pontos que doem em mim. Mas chega a ser pecado contar isso nos seus ouvidos, então me deixa só agarrar na barra das suas calças e me leva embora daqui. E sim, continua a aliviar todas as minhas marteladas, todas as minhas quedas e todos os meus baques. Eu não sei viver, por isso me deixa virar só espectador da sua vida. Por favor, não se importe com os meus dedos, minhas quinas e minhas pontadas, chega mais perto.
E Bárbara volta a ser única e sozinha, e sai andando para cheirar outros mundos e volta. E diz, com o rosto colado no meu, que não gosta de falar de si, porque o que vem de dentro assusta demais o que está do lado de fora, e o que está fora nunca entra dentro, nunca. Eu quero que você saiba, menina, que o que vem de dentro de você é macio, e que se você precisar, te dou meu braço. Te dou meus dedos, minha mão, minhas pernas, meu nariz, meu queixo, meus olhos, te dou todos os meus cantos sujos, menina. Ninguém sabe o que se passa dentro da gente, mas eu imagino o que passa dentro de você, e só por isso eu preciso tanto estar aí dentro.

Matheus Oliveira, inspiração de Tati Bernardi.

6 de março de 2010

De hoje em diante


E aos poucos, e bem devagar, ela se esquece dos golpes, chutes e pontapés baixos e fortes que a vida lhe deu, lhe dará. Não importa quão intensa tenha sido sua história, aos poucos ela vai se esquecer de como é não sentir coisa alguma. Essa garota, que não era pedra - mas também não era tão doce, se levantará. Não por ser forte, pelo contrário: ela terá medo de enfraquecer e começará a sugar o mundo, que hoje a faz tanto mal. Ela se levantará, sim, simplesmente pelo fato de não conseguir guardar ódio no seu coração. Nem amor.
(...) Daqui por diante, ela ama. Mesmo sabendo que isso lhe proporcionará muitas lágrimas e dores pelo meio do caminho. Daqui por diante, e por enquanto, tá limpo, tá limpo, sem engano. Ela se jogou da ponta de um precipicio, e reza todos os dias para não encontrar, tão cedo, o chão.

Matheus Oliveira
para os olhos de jabuticaba, pela inspiração diária

3 de março de 2010

A bailarina de chumbo


Não, dessa vez não tinha soldado de chumbo: era só a bailarina, e essa não precisava de soldado nenhum para se sentir confortavel. Sem armas de fogo, sem devoções e nem paixões destrutivas: a menina, que era quase soldado e quase bailarina, era o ultimo segundo, a decisão, o calor, o suspiro. Tinha o desejo de ter o mundo, e quando o possuia, somente uma pequena parte dele o bastava, porque o mundo nunca fora inteiro. O mundo tinha seus ideiais, seus próprios planos para ela, e ela caminhava sozinha. Talvez isso, talvez aquilo. Talvez, o mundo mesmo, por ser covarde demais, a assustava, e ela, por ser de chumbo demais, assustava o mundo. Isso de conhecer um ao outro seria a morte, o martírio. O mundo era unico, e ela se dividia. Se dividia em várias partes, cada qual com o seu gosto, seu cheiro, tuas perguntas. Se dividir era uma forma de sentir os cantos do mundo, sem tocar neles. Por isso perguntava aos habitantes do mundo como é que se vivia, como é que se via, como é que se sentia? Ela nunca havia sentido. Não por falta de tentativas, não por falta de opções. Tentou uma, duas vezes se comprometer. Mas como é que se vive? Então, lutava mais para acabar com os sentimentos internos do que a favor deles. No fundo, o que ela sabia era a realidade: quando alguém a abraçava, era menos alguém de verdade e mais um desenho ensaiado. E mesmo que não quisesse se perder de ninguém, mais importante agora era não se perder de si mesma. Ela sabe, ela sabe.

Matheus Oliveira
Para a menina com os olhos de jabuticaba