19 de abril de 2011

Ah. Menina, o que foi que aconteceu com você? O que foi que fizeram com você? Eu não sei, eu não entendo. Roubaram a minha alegria (...) roubaram a minha alegria, é tudo uma farsa, aquele olho desmaiado, é tudo uma farsa, roubaram a minha alegria. A primavera, o vento, esperei tanto por essa margarida, e veja só. Atrofiada. Aleijada. As pedras frias do chão da cozinha, rolar nua neste chão, qualquer dia faço uma loucura.

Caio Fernando Abreu

16 de abril de 2011

Eu me sinto às vezes tão frágil, queria me debruçar em alguém, em alguma coisa. Alguma segurança. Invento historinhas para mim mesmo, o tempo todo, me conformo, me dou força. Mas a sensação de estar sozinho não me larga. Algumas paranóias, mas nada de grave. O que incomoda é esta fragilidade, essa aceitação, esse contentar-se com quase nada. Estou todo sensível, as coisas me comovem...

Caio Fernando Abreu
Descobri que minha obsessão por cada coisa em seu lugar, cada assunto em seu tempo, cada palavra em seu estilo, não era o prêmio merecido de uma mente em ordem, mas, pelo contrário, todo um sistema de simulação inventado por mim para ocultar a desordem da minha natureza. Descobri que não sou disciplinado por virtude, e sim como reação contra a minha negligência; que pareço generoso para encobrir minha mesquinhez, que me faço passar por prudente quando na verdade sou desconfiado e sempre penso o pior, que sou conciliador para não sucumbir ás minhas cóleras reprimidas, que só sou pontual para que ninguém saiba como pouco me importa o tempo alheio. Descobri, enfim, que o amor não é um estado de alma e sim um signo do zodíaco.

Gabriel García Marquez
Eu me agarro à beiradinha do meu amor, eu imploro pra que ele fique, ainda que doa mais do que cabe em mim, eu imploro pra que pelo menos esse amor que eu sinto por você não me deixe, pelo menos ele, ainda que insuportável, não desista(...) Que se foda a auto-ajuda, que se fodam os livros com homens carecas, que se foda o terceiro olho e que se foda a psicologia: eu sou mesmo metade sem você e que se foda! Se antes de você aparecer eu já te amava, eu já te esperava, eu já sabia que você existia, como eu posso não te amar agora que você tem forma, sorriso, coração e nome?

Tati Bernardi
Deu vontade de ficar mais tempo junto, deu vontade de levar essa história até o fim – e eu não tenho a menor idéia do que você pensa a respeito, a gente não conversa sobre isso, só fica fazendo uma linha nada-tem-muita-importância, ou algo assim.

Caio Fernando Abreu
Em outros tempos diria “Tomei raiva de você”. Mas nem foi raiva, vejo isso agora. É só tristeza mesmo. “Tomei tristeza de você”.

Caio Fernando Abreu

30 de março de 2011

O que sobrou

“Fico tão cansada às vezes, e digo para mim mesma que está errado,
que não é assim, que
não é este o tempo, que não é este o lugar, que não é esta a vida. (…)"
Caio Fernando Abreu


De segunda a sexta, das 6 às 6, banho, esfregava bem as costa, perfume com cheiro de talco, ônibus cheio, ônibus cheio. Olhos irônicos ao ver os homens que passavam, o tempo ocupando uma grande parte de dentro e ainda sim todo aquele espaço que sobrava e preenchia. Carolina olhava-se no espelho e via marcas (tantas marcas) e tão profundas. Olhava-se no espelho com ironia, se achando cínica, tão cínica, cínica, cínica. Sentia tanta falta de tudo ultimamente: de Fernando, da garota que gostava de garotas que morava na rua de trás, da garota que gostava de garotos (até demais) da rua de baixo, de Bianca, de Arthur (principalmente de Arthur), de Lucas (principalmente de Lucas) e pensava consigo mesma que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar, então meu deus (em minúscula), que bom, meu deus, que amor, desse jeito assim, ela só sentiria uma vez. O que sobrou depois que estes foram embora foi só uma vontade de furar o saco, romper os cordões, deixar doer, deixar deitar, esperar a esperada hora de terminar o dia e de começar outro. Carolina olhava-se no espelho e via seus olhos tão irônicos, tão cínicos e agora tão tristes, e foi explicando aos trancos, agora mais cansada:
- uma hora tudo vai ser limpo e lindo e claro e preenchedor.
Carolina sabia bem de seu poder auto-destrutivo de estragar a vida com beleza, beleza que preenchia todos os seus espaços, espaços que não se satisfaziam nunca. Ela e a sua vontade de ser novamente somente a garota que não queria mais nada, só tomar um banho quente e assistir alguma comédia-romântica-piegas em fins de semanas frustrados. Ela só tinha vontade de parar, enfim. Parar finalmente.

Matheus Oliveira

9 de março de 2011

Pensa em tudo que já foi feito e acredite em seu roteiro. Se teve dias de sol e noites nubladas, não importa. A vida não pode ser rebobinada como uma fita e cada personagem e cena teve o seu lugar na história. Não descarte as emoções sentidas nem menospreze as atitudes escolhidas. Apenas assista novamente de fora, cada pedaço, cada momento. Não pause sua vida porque em algum capítulo o roteiro não te agradou, há ainda muitas cenas por vir. Se no seu presente existem lembranças do passado, saiba que foi o seu passado que construiu seu presente. Não se ausente!


Fernanda Gaona

31 de janeiro de 2011

Eu preciso aprender a ser menos. Menos dramática. Menos intensa. Menos exagerada. Alguém já desejou isso na vida: ser menos? Pois é. Estranho. Mas eu preciso. Nesse minuto, nesse segundo, por favor, me bloqueie o coração, me cale o pensamento, me dê uma droga forte para tranqüilizar a alma. Porque eu preciso. E preciso muito. Eu preciso diminuir o ritmo, abaixar o volume, andar na velocidade permitida, não atropelar quem chega, não tropeçar em mim mesma. Eu preciso respirar. Me aperte o pause, me deixe em stand by, eu não dou conta do meu coração que quer muito. Eu preciso desatar o nó. Eu preciso sentir menos, sonhar menos, amar menos, sofrer menos ainda. Aonde está a placa de PARE bem no meio da minha frase? Confesso: eu não consigo. Nada em mim pára, nada em mim é morno, nada é pouco, não existe sinal vermelho no meu caminho que se abre e me chama. E eu vou... Com o coração na mochila, o lápis borrado, o sorriso e a dúvida, a coragem e o medo, mas vou... Não digo: "estou indo", não digo: "daqui a pouco", nada tem hora a não ser agora. Existe aí algum remedinho para não-sentir? Existe alguma terapia, acupuntura, pedras, cores e aromas para me calar a alma e deixar mudo o pensamento? Quer saber? Existe. Existe e eu preciso. Preciso e não quero.

Fernanda Mello

14 de janeiro de 2011

É fundamental que você escute todas as palavras, todas, e não fique tentando descobrir sentidos ocultos por trás do que estou dizendo, sim, eu reconheço que muitas vezes falei por metáforas, e que é chatíssimo falar por metáforas, pelo menos para quem ouve, e depois, você sabe, eu sempre tive essa preocupação idiota de dizer apenas coisas que não ferissem.

Caio Fernando Abreu